
— Meu Deus, eu não gostaria de estar na pele daquela mulher neste momento — disse a mãe saindo do carro devagar e indo em direção à entrada do salão. — Uma mãe definitivamente não deveria viver para enterrar um filho...
— Nem um pai — concluiu o marido, colocando o braço ao redor da cintura da esposa.
— Querido, você está bem? — perguntou ela ao filho que permanecia com o olhar baixo. — Sei que ele era seu amigo... Mas tudo vai ficar bem, eu prometo.
O jovem de feição séria continuou em silêncio acompanhando os pais.
Na entrada do salão, a única visão do rapaz foi de pura escuridão. Tantas pessoas vestidas de preto, num ambiente de luz fraca em um dia cinzento como aquele cravaram em seu espírito uma sensação de tristeza ainda maior. Vendo os pais caminhando na direção de outro casal ao fundo, perto da janela, achou prudente ficar ali na entrada sozinho. Observou por algum tempo os gestos das pessoas; o modo como a mãe abraçava a mulher de rosto vermelho que não conseguia conter o choro e o forte aperto de mão que o pai ofereceu ao homem ao lado dela que fez com que o mesmo irrompesse em lágrimas quase que instantaneamente.
Sentiu por um momento sua respiração falhar e as paredes começarem a se fechar sobre ele quando decidiu sair do salão.
Parado à beira da calçada da rua, ele olhava para os lados, sem rumo, porém forte, tentando a todo custo conter sua dor. Sabia, contudo, que seria bem mais fácil conter uma bomba prestes a explodir dentro do próprio estômago. Perdido em pensamentos, foi distraído de repente pelo som de um trovão que cortou os ares e fez com que seu coração batesse mais forte. Olhou novamente para a entrada do salão tentando arrancar de algum lugar a coragem para voltar e, finalmente, vê-lo dentro de um caixão, mas a única coisa que conseguiu foi mais insegurança ao ver a mãe e a mulher logo à porta conversando e olhando em sua direção.
Notou como sua mãe fez um gesto afirmativo com a cabeça para a outra mulher, como que dando a ela permissão para fazer qualquer coisa. Esta, portanto, caminhou devagar pela grama até a calçada onde o rapaz estava. Ele se virou para ela, olhando-a bem nos olhos, como se estivesse à espera de algo, pronto para seja lá o que fosse que ela tivesse a dizer. Foi então que, inesperadamente, ela sorriu. Um sorriso pequeno, mas cheio de serenidade e ternura. Ele olhou novamente para a entrada do salão à procura da mãe, mas ela não estava mais lá.
— Eu sei, Ivan. — disse a mulher.
— O quê... O que você sabe?
— Ele me contou tudo.
Num misto de medo e pesar, Ivan sentiu a temperatura de seu sangue diminuir até quase congelar-lhe as vísceras e alma. Foi neste momento, no entanto, que desde a notícia da morte do amigo, ele deixou que as lágrimas finalmente escapassem junto com um gemido forte e angustiado que encheu a mulher de compaixão, fazendo com que ela o abraçasse com força acariciando-lhe a cabeça devagar.
— Era... Era só um relógio! — ele disse quase sem fôlego. — Um maldito relógio! Por que ele não deixou que o levassem de uma vez? Por que resistiu?
Ivan afastou-se dela um segundo tentando recuperar o fôlego. Tentou em vão secar os olhos, mas o choro continuava vindo sem que ele pudesse controlar.
— Eu sinto muito... — disse ele. — Nunca imaginei que ele fosse... Mas que burro! Como ele pôde ser tão estúpido?
— Tudo bem, querido, não foi sua culpa!
— É claro que foi! Foi minha culpa porque fui eu que...
— Deu o relógio para ele. — a mulher completou.
Por um instante, a tristeza de Ivan foi tomada por um repentino sentimento de terror.
— Eu sei... Ele me contou isso também, no hospital. Pouco antes de...
Ivan sentiu, ao ouvir aquilo, que não iria mais agüentar. Foi então que naquele exato momento deixou que a bomba em seu estômago finalmente explodisse dizendo por fim:
— Eu o amava!
A mulher ficou em silêncio, olhando piedosa para a súbita vulnerabilidade que se apoderou completamente daquele homem diante dela. Desta vez, no entanto, foi ela quem secou as lágrimas de Ivan com as próprias mãos e dizendo:
— É claro que amava... Quem seria incapaz de amá-lo, afinal de contas? Ele me pediu que eu lhe dissesse exatamente a mesma coisa.
Imaginando que seus ouvidos o estivessem enganando, Ivan achou melhor ter certeza do que acabara de ouvir com uma confirmação:
— Ele disse que me... Que me amava também? — perguntou gaguejando num tom baixo e com ar de incredulidade na voz ao que a mulher respondeu simplesmente com um sorriso e um movimento afirmativo com a cabeça. — Mas e você? Não sente raiva? Não está desapontada?
— O quê...? Raiva? Acabei de descobrir que meu filho finalmente conseguiu amar alguém de verdade. Como poderia sentir raiva disso?
Sem pensar, Ivan se viu abraçando novamente a mulher e dizendo no meio de um soluço:
— Eu sinto demais a falta dele.
— Todos sentimos, querido... Todos nós sentimos...
Em meio à emoção do momento, ele havia se esquecido de um grande problema.
— Meus pais! — disse ele subitamente. — Eles sabem...?
— Não... Eles não sabem de nada.
Algum tempo depois, Ivan conseguiu reunir forças para entrar novamente no velório. Caminhou devagar entre várias pessoas que o olharam duvidosos sobre quem seria aquele rapaz de aspecto tão abatido e com os olhos marejados indo em direção à sala lateral do edifício, onde jazia o caixão.
— Eles eram muito amigos — disse o pai de Ivan a um dos casais presentes perto dali.
Aproximando-se do caixão, Ivan ficou durante algum tempo sem olhar para seu interior, apenas observando as inúmeras flores e coroas em homenagem ao jovem que havia sido vítima de tamanha brutalidade. Quando finalmente baixou os olhos sobre o corpo, sentiu um forte calafrio percorrer-lhe a espinha e uma rajada de desespero que subitamente se apoderou dele fazendo com que o pranto tornasse a surgir em seu rosto. Chorou alto, forte, sem medo de demonstrar a extensão de sua dor e o quanto sua vida havia sido devastada por aquela perda.
* * *
Ao fim do dia, Ivan estava extremamente abatido e deprimido. No banco de trás do carro, depois do funeral, em meio ao silêncio aterrador que havia se instalado em meio àquela família, ele percebeu os olhares dos pais pelo retrovisor; cheios de piedade, porém envoltos em uma couraça de dúvida.
— Ivan, querido — disse a mãe virando a cabeça para a o banco de trás, — seu pai e eu notamos o quanto você sentiu a perda do seu amigo. Mas não se preocupe tanto, tudo bem? Tudo vai melhorar e novos amigos aparecerão na sua vida e...
— Mãe, por favor! — Ivan interrompeu-a de repente, olhando-a com uma dura expressão no rosto. — Ele não era apenas meu amigo!
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