domingo, 11 de janeiro de 2009

De Profundis


— Tá olhando o quê, babaca?

Sérgio virou a cabeça rapidamente para os lados tentando fingir que aquilo não tinha sido para ele.

— É contigo que eu to falando mesmo, ô cara!

Pronto, era só o que faltava! O homem que ele mais desejava no universo havia acabado de lhe chamar a atenção violentamente em público. O que poderia ser pior do que isso?

— Tá achando que eu tenho cara de viado, é? — continuou o outro parado em pé, logo na entrada do refeitório. — Não sou você, não, seu animal!

A sensação de constrangimento foi tamanha que Sérgio simplesmente abandonou a fila com a bandeja cheia de comida em cima de uma mesa perto dali e saiu pela porta lateral, do lado oposto de onde estava o homem que havia literalmente berrado para ele.

— Pare com isso, Mauro — disse a namorada em voz baixa com olhar pesaroso. — Por que você precisa provocar todo mundo que chega perto de você?

Mauro encarou a namorada, enfurecido, como se tivesse sido profundamente caluniado e retrucou:

— Provocar? Acha mesmo que isso é provocação? Não é a primeira vez que pego esse sujeito olhando pra mim como se eu fosse um astro de filme pornô. Pra mim chega! Vou colocar um ponto final nisso agora...

Dizendo isso, Mauro deixou a namorada sozinha na entrada do refeitório e saiu correndo através da porta lateral.

Sérgio estava parado na calçada quando um trovão cortou os ares. Maldita hora que resolvi comer aqui, pensou ele, olhando para o céu, quando a chuva finalmente começou a cair sobre seu rosto. Sem ao menos ter um guarda-chuva consigo, apertou os livros contra o peito e caminhou mais um pouco na direção do ponto de ônibus, mas antes que pudesse dar dez passos, sentiu seu estômago revirar de vergonha quando ouviu novamente a voz gritar:

— Não vai fugir assim, não!

Aquilo não estava acontecendo... Sérgio fingiu não ter ouvido e continuou caminhando sob a chuva. Havia perdido totalmente o senso de direção; nem sabia mais onde ficava o ponto de ônibus, só queria sumir dalí o mais rápido possível, antes que mais alguém presenciasse aquela cena. Se isso chega aos ouvidos do meu pai, meu Deus!

— To falando com você, viado!

Mergulhado numa onda de medo e torpor, Sérgio sentiu sua visão escurecer instantaneamente. Por que isso agora? Seria castigo? Desde que entrara para aquela universidade sempre fora amigo de todos, querido por todos, menos por aquele que ele mais queria perto de si. O medo e a vergonha de ter seus sentimentos expostos, tudo que ele mais escondera até então, fizeram-no perder totalmente os sentidos, mas foi trazido de volta à realidade ao sentir seu braço sendo puxado com força.

— Eu nunca mais quero ver você olhando pra mim de novo, tá me entendendo? Nunca mais!

Ainda sentindo seu braço sendo pressionado pela mão imensa de Mauro, Sérgio encarou-o com firmeza.

— Tem certeza? — disse de repente, sem saber de onde aquilo tinha vindo.

De repente um silêncio mortal se instalou entre os dois. Era como se a chuva tivesse parado e os carros que passavam na avenida tivessem desaparecido. Nenhum dos dois notou os olhares curiosos de algumas pessoas que passavam por ali. Sérgio viu apenas os olhos vermelhos de Mauro sobre ele. Sua raiva era tão visível que quase podia ser tocada. Era o fim, pensou Sérgio mais uma vez. Se ele não me matar agora, não mata nunca mais.

Mauro simplesmente soltou-lhe o braço e continuou encarando-o com veemência. Por um instante, ambos ficaram de frente um para o outro sem dizer palavra alguma.

— Mauro!

Sérgio ouviu a namorada do outro chamar de algum ponto que ele não conseguiu reconhecer. Ao virar levemente para o lado tentando ver de onde veio a voz, sentiu o golpe violento que Mauro deferiu-lhe contra o estômago.

— Pare com isso, Mauro! — gritou ela novamente.

Sérgio perdeu o equilíbrio por um instante deixando os livros caírem e tentou escapar. Mauro puxou-lhe pelo braço novamente e, desta vez, lançou-lhe um soco direto no rosto. Entorpecido de dor e raiva, Sérgio nem percebeu o sangue que jorrava pelo canto de sua boca, tentou se segurar num poste perto dele, mas sua mão escorregou fazendo-o tropeçar e cambalear na direção da avenida.

— Já chega, Mauro, por favor!

A namorada de Mauro praticamente implorava correndo na direção dele debaixo da chuva. Ele se virou por um instante vendo-a se aproximar, quando Sérgio deu alguns passos para dentro da avenida na direção oposta. Sentindo desta vez o sangue quente escorrendo, olhou para o próprio peito e viu as manchas vermelhas se espalhando no tecido molhado, mas não notou o carro que, ao frear, derrapou sobre o asfalto na direção dele, atingindo-o com força fazendo-o voar sobre o capô...

***

Três pessoas estavam sentadas num sofá perto da janela do quarto do hospital. O suave murmurar das vozes fez com que Sérgio abrisse os olhos bem devagar. Vendo-o girar a cabeça ferida lentamente na sua direção, a mãe se levantou rapidamente e foi até ele, acariciando-lhe os cabelos devagar.

— Tudo bem, meu filho? — perguntou ela com lágrimas nos olhos.

Sérgio não conseguiu responder; sua boca estava adormecida, talvez sob efeito de anestesia ou alguma coisa do tipo. Porém, mais uma vez sentiu uma onda de força percorrer-lhe o corpo fazendo-o movimentar os lábios com alguma dificuldade dizendo:

— Meu pai...

Com ar preocupado, a mãe lançou um olhar para o marido com feições duras que observava aquilo tudo em silêncio, sentado ao lado do outro filho. Ele se levantou devagar e caminhou na direção de Sérgio deitado sobre o leito do hospital com várias partes do corpo envoltas em gesso e faixas debaixo de um cobertor pesado. Não havia dúvida de que todo o incidente havia chegado, em detalhes, aos ouvidos da família inteira, inclusive aos do pai. Talvez aquele fosse o momento em que Sérgio mais sentira medo em toda a sua vida.

Ainda com uma expressão raivosa, o homem se aproximou e colocou a mão sobre o peito do filho e disse:

— Não se preocupe, meu filho, vai ficar tudo bem.

Foi então que, surpreendentemente, Sérgio viu um sorriso que levemente surgiu no rosto do pai.

— Ei! O que você está fazendo aqui?

A atenção de Sérgio foi desviada para o irmão mais velho que, de um salto, levantou-se da poltrona em que estava e partiu em direção ao inesperado visitante que surgiu à porta do quarto.

— Não foi suficiente o que você fez para ele? — berrou o irmão, chamando a atenção das enfermeiras que passavam e pediram que ele se controlasse, segurando-o para que não atacasse Mauro ali mesmo no corredor do hospital. — O que você quer? Eu deveria acabar com a sua raça...

— Por favor... — Sérgio balbuciou com dificuldade. — Tudo bem.

Ouvindo aquela frase dita pelo filho no meio da confusão, a mãe se encheu de indignação.

— O quê? Sérgio, esse sujeito quase acabou com você, meu filho! Não posso deixar que...

— Mãe, por favor...

Mauro continuava do lado de fora. Desta vez, a raiva que Sérgio antes vira em seu rosto, deu lugar a uma expressão de pesar e medo.

— Deixe ele entrar — disse ela ao outro filho.

— Mas como assim? — perguntou o rapaz sem entender nada. — Esse sujeito quase matou meu irmão e agora vem visitá-lo no hospital! Pouco me importa se os pais deles são seus amigos, mãe, eu não vou deixar que ele entre nesse quarto! Pra mim você tinha que estar na cadeia!

— Faça o que sua mãe disse! — ordenou o pai por fim.

Desta vez foi Sérgio quem se surpreendeu.

Confuso, o filho mais velho deu passagem para o agressor do irmão que entrou devagar enquanto os outros saiam pela porta deixando o quarto em total silêncio.

Por algum tempo, nenhum dos dois disse qualquer palavra. Mauro ficou em pé ao lado da cama sem conseguir olhar Sérgio diretamente nos olhos.

— O que... O que você quer? — Sérgio perguntou com os lábios tremendo. Apesar da raiva que ainda sentia pelo que havia acontecido, estava feliz por vê-lo ali, sem fazer idéia de suas intenções.

Mauro finalmente encarou-o com uma ruga entre os olhos. Por um momento Sérgio imaginou se levaria mais algum golpe deitado naquela cama. Queria que sua família voltasse...

— Eu não... Eu... — Mauro não conseguia se expressar. Esfregou o rosto com a mão e respirou profundamente. — Eu... Não imagino como lhe pedir desculpas.

Sérgio soltou um suspiro de alívio e continuou ouvindo.

— Não sei o que foi que você viu em mim... Nem sei se você viu mesmo alguma coisa em mim pra me olhar daquele jeito, mas... Nada justifica o que eu fiz, eu sei. O caso é que... O caso é que, no fundo, eu gostava e... Meu Deus... Sentia mesmo vontade de retribuir.

Mais uma vez um silêncio profundo reinou no quarto, interrompido apenas pelo som da chuva que voltou a cair, batendo contra o vidro da janela. Sérgio virou o rosto para o outro lado sem saber o que dizer, sentindo apenas seu coração batendo muito rápido. O que estava acontecendo?

Em movimentos lentos e cheios de cuidado, Mauro levantou a ponta do cobertor e segurou-lhe a mão com firmeza. Com a outra mão puxou-lhe o queixo de leve e o fez virar a cabeça para si novamente. Então, num movimento lento, Mauro inclinou o tronco sobre a cama e, sem dizer mais nada, encostou os lábios na boca de Sérgio.

— Por que... Por que fez isso?

Sem responder, Mauro deixou o quarto.

***

Passaram-se algumas semanas até Sérgio voltar para a Universidade. Ainda caminhava com o auxílio de muletas no primeiro dia depois de sair do hospital. A notícia devia ter-se espalhado para muito além de sua família, pois todas as pessoas por quem ele passava, lançavam-lhe um olhar de dúvida e falsa lástima o tempo todo. Afinal de contas, ele era o cara que foi atropelado porque resolveu se distrair olhando para outro homem. A partir daquele momento ele seria, no mínimo, motivo de piada dentro do campus. Quem sabe até virasse uma espécie de lenda urbana...

— Você está bem?

O súbito aparecimento de Mauro fazendo aquela pergunta na frente de todos os outros alunos tirou Sérgio do meio de seus pensamentos trazendo-o de volta à realidade. O mínimo que esperava era que Mauro fingisse que não o conhecesse, principalmente depois do suposto beijo no hospital.

— Precisa de ajuda? — insistiu o outro.

— Não... Obrigado. Eu consigo me mover... Só preciso de um pouco de tempo e paciência para subir aquelas escadas até minha sala. — Naquele momento, Sérgio percebeu a certa distância, a presença da namorada de Mauro, que os observava com uma expressão de raiva. Perfeitamente compreensível, afinal de contas, seu namorado estava conversando com um sujeito que, além de persegui-lo dentro de refeitórios, quase o fez ir pra cadeia, não fosse o fato de os pais dele serem amigos da família.

— É... Tenha paciência — Mauro sorriu.

— Olha... Mauro, sobre o que aconteceu no hospital... Se é que aconteceu alguma coisa, não sei. Acho que eu estava dormindo, sonhando, sei lá, mas... Seja lá o que foi aquilo, você pode ficar tranqüilo, ninguém vai ficar sabendo.

— Aquilo o quê?

De repente Sérgio entendeu tudo. Agora, além de viado seria chamado de maluco...

— Está falando do beijo que lhe dei? — insistiu o outro. — Eu te machuquei? A última coisa que eu queria era te machucar novamente, justo ali no hospital, mas se eu lhe causei dor novamente, Sérgio, você me desculpe, por favor...

Sérgio não acreditou no que acabara de ouvir.

— Não... Não é isso! Está tudo bem, não me causou dor.

Mauro soltou um suspiro de alívio e disse:

— Ainda bem. Seu irmão ficaria realmente puto de raiva se eu te machucasse mais uma vez.

— Não me machucou... Na verdade eu nem senti nada, pois estava meio anestesiado, não sei...

— Não sentiu? — perguntou Mauro com ar de dúvida.

— Não, mas...

Antes de deixar Sérgio dizer qualquer outra coisa, Mauro colocou a mão por trás do pescoço do rapaz roçando-lhe a nuca e encarando-o novamente, só que desta vez, seu rosto estava sereno; não havia raiva, medo ou pesar. Sérgio conseguiu, sem saber como, notar um ar de sinceridade naquele gesto.

— Espero que sinta isso, então — Ao dizer isso, Mauro inclinou-se mais uma vez sobre Sérgio e beijou-o, sem nem mesmo se importar com a presença das pessoas ao redor.

A garota, que observava à distância, correu... Para qualquer lugar longe dali.

3 comentários:

  1. Final feliz!

    Se eu levasse um soco na cara e isso me fizesse achar o homem da minha vida,iria olhar pra todo mundo até que eu apanhasse bastante!

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  2. Muito bom Mentor. Gostei, não foi nada clichê.

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  3. Adorei este conto. Fez-me chorar. Muito lindo! O autor esta de parabéns.

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